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Ensaio - Dois fragmentos e um adeus em fantasia - Manoel Messias Pereira

 




Dois fragmentos, e um adeus em fantasias



Dois fragmentos poéticos, dois momentos temporários diferentes, dois séculos e um olhar fragmentado exposto nas obras de Walt Whitman(31 de maio de 1819 + 26 de março de 1892) Portanto um olhar do século XIX, nos Estados Unidos da América. E outro na visão fragmentaria de Ana Cristina Cesar (02 de junho de 1952 +29/de outubro de 1983) portanto um fragmento alicerçado no Século XX, no Brasil


Na página 140 do livro Folha das Folhas de Relva de Walt Whitman, em que encontramos o poema "Adeus, Fantasia Minha!"



Adeus, fantasia minha!
(Uma palavra eu teria a dizer,
mas não é esse o momento:
de todas as palavras e expressões
de um homem, a melhor
é a que se dá no lugar adequado
_e, dado o seu significado,
eu continuo a guardar a minha
até o fim.)




E na página 69, 70 e 71 do livro A teus pés de Ana Cristina Cesar, em que encontramos os poemas "Último Adeus I, Último adeus II, e Último adeus III"








Último Adeus I

Os navios fazem figuras no ar

escapam a cores - os faunos.

Os corpos dos bombeiros bailam

no brilho dos meus pés

Do cais mordo

impaciente

a mão imersa

nos faróis.



Ultimo Adeus II



O navio desatraca

imagino um grande desastre sobre a terra

as lições levantam voo,

agudas

pânicos felinos debruçados na amurada



e na deck-chair

ainda te escuto folhear os últimos poemas

com metade de um sorriso.



Ultimo Adeus III



Tenho escrito longamente sobre esse assunto

Aizita traz o chá

Bebericamos na varanda

Nenhum descontrole na tarde

Intervalo para  as folhas caindo da árvore em frente

que nos entra pela janela

Não precisamos nos dizer nada

O parapeito vaza outra indicação

seca do presente

Ouvimos:

Outra indicação seca do presente

Aizita vai ver a folhinha

pendurada no prego da cozinha

Acaba o chá

Acaba a colher de chá

Longamente

Eu também, bem, tenho escrito.





Para Whitman, ele dá adeus a fantasia dele. Porém ele não especifica o que é essa fantasia. que num primeiro olhar pode levar-nos a entender que é a busca do imaginar ou de criar imaginação.  Mas isto é próprio do artista. Porém há quem possa entender que essa fantasia seja apenas a reprodução de imagens mentais, como coisas do passado ou certas representações que foge da realidade. Ou a quem pode entender como um grau superior da imaginação ou um pensar espiritual. Mas o próprio Whitman estabelece que é uma palavra que teria de dizer, porém ele silencia e afirma que não é o momento e afiram que de todas as palavras e expressões precisa surgir no lugar adequado. Portanto onde não podemos dizer tudo o que queremos. Mas ele prefere guardar suas palavras  Se fossemos pensar que a sua fantasia saísse da condição de palavra com certeza haveria um gesto, Teve um V da vitória, ou as mão espalmadas ou os punhos cerrados. Cada um destes gestos simbolizam uma criação, uma fantasia a partir de nossas ações. Quando se dá adeus, por outro lado a uma despedida, e lembrar o lenço acenando na distancia. Que pode ser da palavra não dita ou dos gestos de expressões, não expressa.  Mas adeus parece ser uma partida, ou quase uma despedida. Porém quando se disse Adeus você continua vivo. Para dizer refletir e observar o impacto de dizer.

A história nos mostra que o grande poeta cujo o brasileiro Paulo Leminsk via Walt Whitman como o revolucionário da Revolução Americana como Maiakovsky seria o grande poeta da Revolução Russa.

A vida de Whitman, foi de impressor de poesia, foi de aula de e foi de criação de jornais, e nos seus 72 anos de vida foi poeta, foi ensaísta, foi jornalista, editou o Aurora, montou uma tipografia e uma papelaria. E em 1855 editou "Leaves of Grass" um livro que teve 8 edições. Porém ficou conhecido com a célebre citação do enredo do filme "Sociedade dos Poetas Mortos" O adeus a vida surge porém com um AVC, que deixa sequelas e fragilidade e sofrimento físico e que permite instalar uma tuberculoso que acaba matando-o. Mas isto faz-me lembrar que muitos grandes poetas e boêmios foram vítima da mesma doença.




Em relação a Ana Cristina recordamos que ela foi a grande figura da geração mimeógrafo, uma moça de origem culta filha do sociólogo Waldo Aranha Lenz Cesar e a professora dona Maria Luiza  e a sua forma de escrever o ultimo Adeus I ela deixa a mostrar que ela não dá adeus a fantasia pelo contrário ela cria os navios que vão para o ar, e não para o mar. Outro momento de fantasia e o mito dos semi deuses escrito como faunos, o mortal com um corpo de  metade homem, metade bode, o interessante que há uma correspondência entre os faunos e os sátiros gregos, na mitologia grega e romana vão se confundindo. São semideuses mortais. Fauno é um marinheiro que apaixona-se por Safo. E isto é interessante pois o marinheiro está para ela no ar pois o navio só pode navegar com o marinheiro. Porém entre Safo e Fauno temos Afrodite, com beleza,sedução a fim de que pudesse conquistar a poetisa.

E quem dirige os naus na noite são os faróis que as mãos tentam controlar.  Já na obra Ultimo Adeus II, ela já não fala dos navios, mas sim apenas de um navio onde talvez estejas o teu destino. Esse navio que não voa, mas que destraça, portanto que  mexer-se e levam a um grande desastre, que pode afundar. Porém é tempo de fantasia ou de criar o voo do navio no ar. E espreguice diante de todos os acontecimentos. Já no último Adeus ela pede o chá vai beber na varanda, ve as folhas caindo das árvores, pede para a empregada observar a folhinha vê o chá acabar e fala da seca do presente, portanto o navio não está no ar mas na fantasia criada pela autora.

O Adeus aqui até então está no contexto da vida. E nada além disto. A fantasia de Ana Cristina é presente numa cultura que entranha a erudição dos seres, encontra se nos livro a mitologia como de fauno romano  ou como satiro grego. E o importante é que Fauno é o pai de latino, que em Lácio surgiu o próprio latim, esse que dá origem as línguas nacionais italiana, francesa, espanhola e portuguesa. E a correspondência deste contexto com as palavras de Walt Whitman é que a fantasia que ele dá adeus está  na palavra que estava presente no século XIX ele talvez não quisesse falar, por isso resolveu guarda-la e nada  disse. Ana Cristina imortaliza -se suicidando aos 31 anos de idade.

Fantasia vem do latim, imaginari, forma na imagem mental de algo, derivado de imago imagem e representação da mesma raiz de imitari, copiar. Portanto nesta questão da palavra fantasia a quem imagina diz adeus e silencia como Whitman e há quem  dá o ultimo adeus e se fantasia como Ana Cristina. Porém no fim do ato ela  pede toma o chá e como ela afirma acabou a colher de chá. E deixa escrito o seu olhar sobre o mundo. E tudo alicerçado nestes fragmentos literários.


Manoel Messias Pereira


professor e poeta
Membro da Academia de Letras do Brasil - ALB
São José do Rio Preto-SP.





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