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Crônica - Os primeiros passos rumo a Escola Primária - Manoel Messias Pereira

 




Os primeiros passos rumo a Escola primária

Em 1963 entrei pela primeira vez numa escola no primeiro ano do grupo escolar, era apenas um menino negro, estigmatizado por ser filho de uma mãe de santo, que morava na periferia que andava quase três quilomentros a pé numa estrada sem asfalto pra chegar a escola, chamada Cenobelino de Barro Serra, instalada até hoje no mesmo ponto da avenida da Saudade em São José do Rio Preto. Por onde via passar os cortejos funebres, numa época em que não havia velório instalado no Cemitério da Ressurreição.

E assim como na minha vila não tinha asfalto, também não existir rede de energia elétrica e o telefone mais próximo era da algodoeira que conheciámos como Sanbra ou Sociedade Algodoeira do Nordeste ou Noroeste Brasileiro. Ou tempo as vezes não ajuda na minha memória, pois tinha neste período 10 anos sendo que hoje já caminho para os setenta anos. Mas era dali que faziamos ligações para vir uma viatura policial ou uma ambulânia para o bairro.

Antes de chegar no escritório da Sanbra, havia uma igrejinha onde colocavam santos quebrados, ascendiam velas pras almas, alguns deixavam fotos de entes queridos, coisas e costumes de um Brasil que vai se apagando. Hoje a antiga algodoeira deu lugar para a instalação de uma Escola privada chamada Objetivo ligada a rede da UNIP.

O caminho que fazia todos os dias para ir as escolas tinha no meio do caminho uma pinguela ou uma pontinha bem precária onde observava o pequeno riacho que corria e que ia abrigar-se lá na represa municipal, esse riacho contava com pequeninos peixes chamados de barrigudinhos e  lambaaris. As vezes perdia alguns minutos envolvidos na beleza daquele rio e nas espécies de fauna e flora que o cercava. Tinham também vários tipos de sapos, ras e perereca. E ao longo do curso d'agua haviam plantas que nasciam pequenas flores amarelas.

Onde hoje está instalada uma creche da prefeitura, era uma casa de um senhor que plantava flores, portanto haviam mudas coloridas por ali e ao lado enormes hortas. A avenida ainda não estava traçada com a urbanização que temos hoje e o rio não era concretado como vemos hoje. Soimente mais tarde vieram as construções dos viadultos e eu segui com meus olhos de meninos, os trabalhos de operários e engenheiros.

Como a minha rua era de terra, sempre vinha um trator ou uma máquina cattepillar, para palinar, fazer buraco e geralmente quando isso ocorria, daí uns dias chovia e virava aquela desgraça de barro. E quando acabava o barro e vinha a poeira. 

Quando a professora do segundo ano primario dona Angélica Bello Scarpelli, pediu para que o meu sapato pudesse vir engraxado eu que percorria aquela terra, deu uma vontade de rir. Levei a sua reivindicação até minha mãe. E ela olhou com aquele olhar de clínico de ponto socorro, que deseja operar cirurgicamente pacientes numa ansiedade quase doentia. E disse -me diga a ela pra dar aquele poder do shazan, e voce transforme no capitão Marvel e vai voando para a escola.

É pelo visto minha mãe queria dizer voce não tem os super poder de capitão Marvel e eu não tenho o poder de fazer o poder público vir aqui e transformar a rua de terra de um dia para o outro em asfalto ou de preparar isto aqui. Ou de ter luzes por aqui. E essa é um reivindicação politica, Mas ela sabia que precisava reivindicar isto, que precisava ter pessoas ao lado dela, que precisava reunir com pessoas que pudesse articular tudo.

A minha casa e o terreiro era apenas um pequeno barraco de madeira. O único trabalho dela era trabalhar como faxineira, catadeira de café nos armazens da cidade, ganhar uma desgraça de salário como é de costume e ser capacho de uma merda de burguesia que apenas fica cada dia mais rica as custas do suor de quem gasta chinelo e faz filho para ser explorada as exaustão como eram na época dos escravos. Só que na escravidão havia neste sistema capitalista que é o mesmo essa aberração de você não ser dono de seu corpo, não ser dono de sua alma e ser propriedade de um senhor. Uma tremenda estupidez.

Agora somos todos empregados, marcados pra morrer na miséria, como um rato que espera a ração na sua prisão de gaiola pras pessoas vir dar risada e achar bonito o sofrimento, correndo numa roda que não sai do lugar.

Pois bem o poder que eu poderia ter como criança neste cenário era de preparar-me a todos os instantes pensando num futuro quase distante. Imaginava que cresceria e viria ser mais um miserável, discriminado, subjulgado pela cor da minha pele do meu cabelo carapinha. Mas também imaginava que deveria ser o melhor aluno em relação as disciplinas escolares e um exemplo como filho e valorizar meus professores sempre.

Em relação aos meus coleguinhas deveria ser sempre uma referência. E quando fui para a escola inicialmente falaram-me cuidado que lá voce vai apanhar muito dos meninos que não gostam de negros. Só recordo de uma besta que chamava Fernando e o desgraçdo virou psicólogo, que informou me não cumprimenta -me pois voce é preto. Afastei daquele esterco humano. havia outros garotos canalhas que sempre achava de jogar sementes de uma arvore no meu rosto. além de uma bosta chamada de Tiririca, que o pai dele tinha um posto de gazolina ali na rua Regente Feijó, que jogou-me no rosto uma manga chupada. Óbviamente que ele era maior do que eu. Que nunca fui gigante. Meu ódio era fazer pagar por ser estúpido mas não encontrei como até que um dia depois de anos vi no noticiario que a empresa dele pegou fogo. Disse lamento muito mas a vingança foi feita talvez por Deus. Que biblicamente disse quem com ferro fere com ferro deve ser ferido.

Na escola Cenobelino participei de uma atividade do Dia do Trabalho um acontecimento do dia 30 de abril de 1965, onde coloquei nas mãos uma luva de boxeador. Até hoje meu amigo José Augusto chama-me de meu Eder Jofre. E juntos plantamos em 1966 uma árvore na escola. Que precisou ser retirada para a construção de uma casa de força de energia. E no dia que estava retirando a árvore eu estava lá novamente observando os operários, operando o seu trabalho. 

Diz que recordar é viver, mas penso que lembrar do caminho que levou a gente a primeira escola, que encontrou lá ous primeiros professores, como a dona terezinha Benfati, dona Angelica Bello Scarpelli, dona Magali Correa, dona Marilena um anjo que surgiu na escola em 1965, dono Marcia Mendonça, e dona Maria do Rosário Albano de Almeida aquela professora nazifascista, que suicidou-se em homenagem a cada um delas o meu muito obrigado. Cada uma delas trouxe-me uma estrada, um sonho que segui, para mais tarde formar-me como ser humano, como ser pensante, como ser filosófico sem esquecer os passos pelas estradas sem asfalto, mas foram caminhos que deixei pegadas como ensinaram-me outrora. E assim um dia também virei professor como professei em sala de aula com 10 anos de idade. Assim como um especialista em educação afro brasileira.


Manoel Messias Pereira

professor e cronista brasileiro

São José do Rio Preto -SP. Brasil



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